Quinta-feira, Maio 20, 2004

um verso
para minha comadre maricota

na alcova sombria e quente
pobre demais se não erro
repousa um homem doente
sobre uma cama de ferro

pede-lhe baixo, inclinada,
sua mulher, que adormeça,
em cuja perna curvada
ele descansa a cabeça

chega uma loira figura
com a colher de tintura
que ele recusa num ai

mas o solícito anjinho
pede com muito carinho:
bebe que é doce papai.

olha comadre, não lembro quem fez o verso, mas que é triste, é. hoje estou com os quartos doendo. por isto vou deitar mais cedo. e o joanete comadre, este nem conto. aqui, em maria da fé, está muito frio. aí o joanete inflama. sem contar que a pressão sobe.
amanhã nós conversamos, comadre. hoje, vou para a cama fria, com saudade do finado joaquim ota que esquentava meu canto.

ele roncava. mas era quente o bandido.



2 Comments:

Anonymous Anônimo said...

Este poema, citado com algumas imperfeições com relação ao original, é de Bernardino da Costa Lopes, ou B. Lopes, e está incluído no seu livro Cromos.

6:54 PM  
Blogger Fredson N. Aguiar said...

Isso pra não dizer que este genial carioca (era natural do Arraial da Boa Esperança em Rio Bonito-RJ, que um dia retratou num soneto sobre "a tal visita da princesa à sua cidade"), negro, nascido antes do fim da escravidão (1859-1916), mas filho de pais livres e um dos primeiros poetas parnasianos e simbolistas brasileiros (Ele foi a influência aberta que Cruz e Souza teve quando criou sua primeira etapa de produção poética), realizou a retratação de cenas cotidianas, como a deste sonetos exposto aqui no blog, em um sem número de sonetos de claro rigor estético, mas, aparentemente, singelo e brando.

B. Lopes (ou Bernardino Costa Lopes) é, hoje, um poeta esquecido pela massa nacional (esquecido que nem o busto do parnasiano Raimundo Correia no Passeio Público do RJ - onde muita gente passa por lá e nem sabe mais quem é aquela figura de cavanhaque frondoso e nem porque o chamam de "O Poeta das Pombas"), mas poucos ainda lembram deste grande mestre do verso cotidiano, que foi Bernardino, como bem lembraram o "Anônimo" e a "Moça Adoentada com dor nas costas".

Resolvi dispor abaixo dois sonetos de B. Lopes, que andam esquecidos no tempo pelos brasileiros.

Soneto

A casa daquela gente
É branca como um jasmim!
Tem nas vidraças da frente
Forros azuis de cetim.

Quando sol tinge o poente,
Vai de bengala ao jardim
Um velhote impertinente,
De roupa clara de brim.

Enxota os pintos e clama
Contra quem pisa na grama;
Xinga as crianças – cruel!

Por encontrá-las adiante,
Pondo no lago ondulante
Embarcações de papel!

(B. Lopes)

*

"Orgulho"


Este, que me sustém e que me eleva
Ao Pindo, leve como um grão de trigo,
E com a força viril do braço amigo
A um golpe irado me remiu da treva;

Este, que o sangue do meu brio ceva
E, fascinado, por desertos sigo,
Monstro de alma e razão, calma e perigo,
Que só pode cair sob os pés de Eva;

Este, que me sacode fibra a fibra
E a largos berros o meu nome vibra
Da garganta infernal na áspera tuba,

É, da selva do Dante, em que mergulho,
O meu fulvo, potente e ousado orgulho,
— Leão soberbo sacudindo a juba ...


(B. Lopes - do Livro "Helenos" (1901))


Abraços!!


(F.N.Aguiar)
f.aguiarduran@bol.com.br

http://sonetosdosantodaime.blogspot.com

http://www.sonetos.com.br/meulivro.php?a=38

9:17 AM  

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